Oito tempos

A sala de espelhos sempre fascinou aquele pequeno rapaz, uma criança, mas um menino que sentia o peso de ser menino, de ser homem: envolvia certas responsabilidades e expectativas que deveria atender aos olhos dos outros, e não aos olhos que encontrava diante do espelho.

Aquele desejo foi trancado de si mesmo e negou desejar algo tão simples, como se aquele desejo não existisse, tornando-se  facilmente algo que não queria. E negou tudo mais também: não teve futebol, basquete, vôlei ou handball. Teve um pouco de natação, é verdade. Mas só porque ali podia afogar-se em seus pensamentos que virariam rascunhos ou apenas boiariam e afundariam com ele.

Nem sequer à rua saia para brincadeiras, tornando-se o completo oposto daquela que tinha em sua veia o mesmo sangue. Ela podia ir à sala de espelhos duas vezes por semana, jogava qualquer coisa na rua: de queimada a futebol. Dançava na garagem passos que ele se recorda até hoje só de assistir. Com ele, a mãe brigava para sair um pouco de casa, do quarto. Com ela, a briga era para que parasse um pouco mais em casa. Mães nunca sabem o que querem!

Sabem sim. Claro! Querem o melhor para seus filhos e ele pensava que o melhor e era se proteger ao máximo da maldade do mundo, evitando assim problemas que não queria. Era apenas uma criança responsável demais pelos sentimentos dele e dos outros. Fez questão de ser feliz com o que tinha, e foi. Verdadeiramente.

Aos poucos tomou consciência de que a vida estaria colocando em sua frente escolhas muito mais complexas do que futebol ou natação, curso de inglês ou espanhol, soltar pipa ou jogar vídeo-game. Precisou assumir algumas posturas, com certa dificuldade e todas as incertezas do mundo.

Já mais velho e quase formado naquilo que quis, naquela fase quase-adulta, pois adultos não moram mais com os pais, percebeu que ele mesmo fez dele um monstro que não seria mais capaz de suportar. Seus olhos agora tinham o peso dos olhos do mundo, incapaz de ver mais a própria verdade e saber de seus próprios desejos. E triste reconheceu que não se reconhecia.

Não, não é a crise gerada pelo “quem sou eu?” que todos têm. Não saber quem se é hoje pode ser confortado quando no futuro souber quem se foi e o que fez, se nisso houver algum gosto, algum resquício de felicidade.  E quem ele tinha sido até agora?

Libertou-se aos poucos, entre crises e mágoas, aprendeu a ser homem e cuidar de todas as responsabilidades que isso envolve. E aprendeu a ser muito mais homem ainda, reconhecendo sem ajuda de nenhum espelho quem ele era, capaz de fazer a barba de olhos fechados, sem causar nenhum dano ao próprio rosto. Deu alguns passos nesse novo caminho, passou a sentir-se pleno e num repente, reconheceu na plenitude um espaço vago.

O que poderia estar faltando?

“Sedentário por opção, sem nenhum talento para esporte algum descoberto de maneira cruel em um curso poliesportivo que fiz aos dez anos de idade”, declarava vez ou outra justificando sua incapacidade de freqüentar uma academia, ou manter qualquer a prática constante de qualquer espécie de exercício físico.

E de frente ao espelho, lembrou-se num susto da sala de espelhos que nunca quis freqüentar. “Não, eu sempre quis freqüentar”. E agora ele se via ali, de frente ao espelho gigante daquela sala, ainda meio sem jeito e envergonhado. Contou. 5, 6, 7,8. Ainda sem conseguir encarar-se no espelho com vergonha de si mesmo, dançou.

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Porcelana

Lembro muito bem. A minha irmã certa vez ganhou uma daquelas bonecas de porcelana que são das mais tristes, pois com elas não se podem brincar: são muito frágeis e quebram.  Não era uma dessas caríssimas, feita toda em porcelana, era só sua cabeça era frágil. Seu corpo era feito todo de pano e mesmo assim ela exibia uma pose requintada, de bruços.
Xereta era adjetivo corrente meu, minha mãe adorava chamar-me assim, penso que adorava afinal foi ela quem me deu esse título, não sem razão: eu era um desses garotinhos sem modos, abria as gavetas das mobílias das casas que visitávamos, mexia em porta-retratos, enfeites e tudo mais. E isso foi até mesmo depois de crescidinho. Minhas mãos eram a extensão dos meus olhos que só brilhavam ao tocar as coisas, não bastava ver. Até hoje o toque eleva meu espírito.
E a boneca nova da minha irmã ficava dentro daquelas caixas azuis transparentes, bregas. Minha irmã justificativa que a tal boneca era um item colacionável e deveria ficar sempre dentro daquela caixa, enfeitando a prateleira sobre a cama dela no quarto que dividíamos. Pobre do brinquedo que perde o seu propósito, sua razão de ser.
Minhas mãos coçavam para pegá-la, elas a desejavam. Tocar a caixa não tinha a menor graça, definitivamente, queria mesmo era sentir a textura daqueles cabelos, correr meus dedos pelo rosto frio feito de porcelana, apertá-la, senti-la. Na primeira oportunidade que tive – não lembro mais a ocasião – passei suavemente o dedo no recorte que prendia um lado da caixa em forma de V e a abri. Com muito cuidado, retirei a boneca de lá e a apoiei sobre a cama da minha irmã. Ainda sem tocá-la, meus olhos brilharam. Pela primeira vez sem o toque meus olhos brilhavam: a caixa azul tosca e fosca tornava feias as cores reais da boneca que não se brinca.

Não, com ela não se brinca e meus olhos começaram a me explicar por que. Ela era bonita demais de se ver, chegava a ser uma experiência purificadora contemplar a beleza da boneca, acho que nunca dediquei tanto tempo de minha vida contemplando algo, mas passado algum tempo observando, comecei a reparar que ela estava triste em apenas ser observada e não achei justo que ficasse assim.
Então aconteceu o toque. Pude sentir a leveza do peso dela, o corpo macio, o cheirinho de lavanda, o cabelo de lã quente que se encontrava com o rosto gelado e frio que ainda era triste. Então, para animá-la um pouco, resolvi brincar com ela, balancei seu corpo freneticamente segurando-a pelos bracinhos como se dançássemos, rodopiei, joguei-a para o alto e a peguei, uma, duas, três, tantas vezes!
Por sorte eu brincava em cima da cama quando a cabeça de porcelana soltou-se do resto do corpo. Fiquei em estado de choque, fiz a boneca perder a cabeça! Eu estaria numa encrenca das grandes se não arrumasse aquilo.
Peguei a cabeça que tinha o rosto paralisado, mas agora sorria e coloquei novamente junto ao corpo debruçado da boneca, puxei um pouco a gola e os babados do vestido da boneca de forma que segurasse o pescoço e cuidadosamente, ela ainda sorria e parecia estar tudo bem. Guardei-a dentro da caixa e coloquei de volta em seu lugar. Arrumei todos os vestígios, alisei os lençóis da cama.  Ninguém perceberia.
Eu e boneca tínhamos então um segredo: ambos sabíamos que eu tinha soltado a cabeça dela e eu sabia fazê-la sorrir, mesmo que fosse perigoso. Eu não precisava mais retirá-la da caixa para que ela sorrisse pra mim. Mas minha irmã e todos os outros foram privados de conhecer suas reais cores, de ver seu sorriso. Eu não. E agora, nas próximas oportunidades só bastaria retirá-la da caixa, sem nem sequer tocá-la, pois ao me ver, ela sorria e ao vê-la, meus olhos brilhavam.

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Barrigada

Eu mesmo nunca me enxerguei talvez de forma tão nítida. Para você, minhas águas turvas são transparentes de alguma maneira. E qual espelho que não mente? A mente que não se ilude?

Um plano simples e nele um buraco, um furo. Continua sendo plano?

E agora sinto chamas no peito e formigamentos nos braços. Aquele papo de piscina, lago, ou rio. Chegar com calma, analisar, ver a profundidade, considerar os perigos da correnteza, ver a temperatura da água, voltar e buscar a toalha, correr em volta, aquecer, alongar, tomar uma ducha.

Foi desse jeito. Mas mesmo com tanto preparo, o mergulho seria inevitável. No fundo, vi uma pedra onde invariavelmente poderia bater a cabeça, mas aceitei o risco. Coloquei-me a postos e sem mais pensar ou calcular pulei e alguma coisa não saiu certo. E não foi a pedra.

Então vislumbrei que não adiantou planejar com tanto cuidado, rondar com toda a calma tentando detectar os riscos e as condições da água. O problema estava justamente no mergulhador que não sabia pular direito.

Como quem quer abraçar o mundo, mergulhei meu corpo todo de uma vez, com braços abertos. Ao invés de dar um pulo rápido com a posição certa onde seqüencialmente mergulhariam as mãos, os braços depois a cabeça e o resto do corpo na seqüência.

O mergulho demorou a sair e, não por culpa da água, doeu. Foi uma barrigada. Mas a água está deliciosa.

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Entre o abrigo e a tempestade

Aquela foi a gota que transbordou tudo assim que tinha acabado de secar.

É duro tomar banho de água fria no inverno. Você treme involuntariamente, não importa seu tamanho. Passa um vento que gela ainda mais e arrepia. Apenas um abrigo seco é seu maior desejo. Todos dizem que não adianta procurar, quando você se der conta, estará novamente aquecido e aconchegado, sem tremer ou temer.

Ainda úmido, encontrei um abrigo convidativo na estrada. Mantive meus passos, apesar de desejar correr com todas as minhas forças. E o inevitável aconteceu. Cheguei até a porta daquele abrigo e parecia que todo frio havia passado. Para minha sorte, ele não estava trancado. Abri a porta, olhei aquelas paredes e todo conforto que eu estava prestes a ter. Senti um sorriso se abrir involuntariamente no meu rosto, talvez fosse felicidade.

Então um vento bateu a porta no meu rosto. São Pedro achou que seria conveniente uma tempestade. Senti cada gota me molhar novamente e o frio fazer meu corpo tremer. Minhas mãos seguravam a maçaneta enquanto eu olhava pra cima. Meu sorriso ainda se manteve, irônico, mas eu ainda tremia e temia.

Quando o Sol saiu, me encontrou agachado à porta daquele abrigo que eu nunca cheguei a entrar. Sequei e segui pela estrada sozinho. Como sempre. Sei que nem sempre posso contar com a luz e o calor do Sol. Mas nem o mais confortável abrigo me fez resistir à força daquela tempestade que gelou meu corpo e lavou minha alma.

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Eis que surge

Naquela noite que havia permitido esquecer-me de todos os meus próprios valores, desconstruir-me, fazer o feio, o que escandaliza e choca. Ser sobriamente bêbado, boêmio, vazio, enfim. Eis que surge.
Tenho deixado meus impulsos agirem, sem reprimir as minhas vontades. E ultimamente descobri que nem todas as minhas vontades serão viáveis e quando a vontade traduz-se em amar, a dor é grande. Porque amor nunca é equivalente, já sei. E eis que surge. Aqui, só no meu pensamento, rindo alto da dor que sofro e a pouco provoquei.

Sou vulnerável, me diz a música.

Voltando àquela noite, eis que surge e me olha, aparentemente sem condenar, mas a sua presença já me pesa a consciência, pois recordo de ter deixado claro todos os valores que iria esquecer naquela noite.

Eu não sou eu mesmo nesta noite, outra música.

Segui decidido e não freei meus impulsos, seguindo firme ao propósito de me trair. Fútil, mas extremamente prazeroso. Paradoxal. Que mal há nisso? Eis que peço: não me leve a mal. Nem sei se me vigiava, se me viu tomar as atitudes que eu próprio considero repugnantes.  Não fiz nada, jamais, para que imagine que te quero mal, apenas não te quero mais. Essa foi a última música.

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Rascunho do Coletivo

O ônibus é o meu templo de reflexão, preciso estar em movimento, em viagem, para refletir. Parado não há fluência. Preciso de paisagens, pessoas que vem e vão para, engraçado, ficar sozinho e bem.

Não sei se é o barulho do motor ou do ar comprimido nos freios, os murmurinhos ou as conversas da vida. Distração, pura distração.

Tomar notas enquanto se viaja faz o tempo passar mais rápido, mas o tempo não parece perdido, ele ganha-se em linhas e garranchos indecifráveis que passam pelas ruas esburacadas e freadas bruscas.

E o ônibus segue sempre o mesmo percurso, já meus pensamentos vão longe, voltam para perto e até somem.

Escuto uma música, vejo as luzes passarem, sorrisos, atento a uma conversa, ao livro que o outro carrega e sigo calado.

Cada dia uma viagem diferente! Hoje mesmo, na vinda, tive pensamentos românticos que acabaram voltando agora que me lembrei deles. Voltei uma página e li a seguinte nota: “Paixão dói”. E desejo essa dor com toda a minha força e um solavanco toma a minha atenção para a rua. Duvido que consiga ler isso tudo.

De repente, o rangido da porta a cada parada começa a me incomodar e percebo também que já incomodo o rapaz sentado ao lado com o meu caderno e escrita compulsiva. Quem tem a sorte de viajar para outros lugares além do itinerário sou eu.

Na verdade, há muito tempo eu não escrevia em viagem. Fiz isso na ida e repeti na volta.

Percebi que – para escrever – não posso estar sozinho e também não posso estar com qualquer um. Porque todo esse tempo sem escrever jamais foram tempos de solidão. E esse rascunho a lápis, jamais será passado a limpo.

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Quarta Parede

É quando há uma platéia, mas no lugar dela pensa-se na quarta parede. Você não é mais você e sim aquele papel que representa. Deixando a sua consciência de lado para viver outra realidade.

Ao fim do último ato, os aplausos despertam a sua consciência e você não reconhece que eles sejam legítimos, afinal não era você que estava ali. Por educação agradece, acena. Cai o pano.

Na próxima noite, você derruba todas as paredes possíveis e imagináveis. Segue todas as marcações, as falas e faz tudo como manda o script sem deixar a consciência de lado. E os aplausos dessa vez são para você. Orgulha-se, agradece, acena.

Segue a temporada.

Fica sendo assim, sempre sem a quarta parede. E certa noite, alguém se levanta da platéia, sobe ao palco e caminha em sua direção. Você esquece todas as marcações e falas. Não sabe como agir ou improvisar.

Sabendo que essa outra pessoa ficará ali, afinal você está consciente – era nisso que implicava derrubar a quarta parede -, como reagir?

Derrubar as paredes foi fácil, difícil será reerguê-las no próximo espetáculo.

E a pessoa segue ali, mostrando para sua consciência que nada se resume apenas em aplausos, textos decorados e movimentos pensados.

E essa sim é a sua realidade.

Silêncio.

Blackout.

Pano.

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