Camila se cansou de todo fim de ano igual, repetido. Queria que as coisas mudassem e então resolveu: pegou a caixa com todos os enfeites de Natal da sua casa, jogou num latão velho que encontrou na garagem, levou até o quintal, tacou querosene e jogou a bituca ainda acesa de seu cigarro lá dentro. Não demorou para que o fogo consumisse todos aqueles laços, bolas coloridas e breguices de final de ano.
Acendeu outro cigarro para contemplar a chama no latão e então se deu conta que estava queimando todos os Natais passados e que não sobraria nada. Nenhum vestígio. Por alguma razão que ela desconhecia, escorriam lágrimas dos seus olhos e não demorou os soluços chegarem.
Resolveu voltar para dentro de casa e deixar que o fogo fizesse o seu trabalho sozinho. Imaginou ele perguntando por que nesse ano não colocariam os enfeites, o que havia acontecido. “Por que?” Agora ela gritava enquanto chorava desesperadamente encolhida atrás da porta. Apagou aquele cigarro na própria mão na vã tentativa de ter uma dor maior.
Logo os vizinhos se incomodaram com a fumaça e o cheiro de plástico queimando e foram apagar a chama daquele latão. Ninguém se atreveu a questionar a razão para ela ter feito aquilo. Sabiam que ela devia estar sofrendo.
Passado um tempo, ela se levantou, esfregou os olhos e subiu lentamente para o seu quarto. Pegou a passagem separada na penteadeira e colocou numa mochila, fechou a mala que ainda estava aberta sobre a cama e desceu.
Em dez minutos o taxi chegou, ela passou na escola para pegar o filho e depois seguiram juntos ao aeroporto. “Promete que vai se comportar” disse ao se despedir. “Por que não posso passar o Natal com você?” perguntou a criança “Logo eu volto, apenas prometa” ele nada disse, apenas fez que sim com a cabeça, já contraindo seus olhos e lábios chorando.
- Você fez o que eu pedi? – ele disse com a voz baixa, soluçando.
- Nenhum enfeite, nenhum presente, nada. E vou começar uma vida nova!
Um sorriso muito grande formou-se no rosto do garoto, igual ao da fotografia que ela agora contemplava no banco de trás do taxi. “Vai querer ficar parada aqui quanto tempo mais? A bandeira está correndo”.
Ela então pediu que o motorista seguisse rumo ao aeroporto, pois seu filho já não estava mais ali – provavelmente alguém já teria o levado ao aeroporto. Mas na verdade ele estava ali, sentado ao seu lado e ela sabia. E sabia também, que em nenhum outro lugar do mundo ele estaria que não ao seu lado.
Ao chegar ao aeroporto, deixou o troco como caixinha de Natal ao motorista e sem se despedir de ninguém, voou para onde também não haveria ninguém esperando por ela.