Eu mesmo nunca me enxerguei talvez de forma tão nítida. Para você, minhas águas turvas são transparentes de alguma maneira. E qual espelho que não mente? A mente que não se ilude?
Um plano simples e nele um buraco, um furo. Continua sendo plano?
E agora sinto chamas no peito e formigamentos nos braços. Aquele papo de piscina, lago, ou rio. Chegar com calma, analisar, ver a profundidade, considerar os perigos da correnteza, ver a temperatura da água, voltar e buscar a toalha, correr em volta, aquecer, alongar, tomar uma ducha.
Foi desse jeito. Mas mesmo com tanto preparo, o mergulho seria inevitável. No fundo, vi uma pedra onde invariavelmente poderia bater a cabeça, mas aceitei o risco. Coloquei-me a postos e sem mais pensar ou calcular pulei e alguma coisa não saiu certo. E não foi a pedra.
Então vislumbrei que não adiantou planejar com tanto cuidado, rondar com toda a calma tentando detectar os riscos e as condições da água. O problema estava justamente no mergulhador que não sabia pular direito.
Como quem quer abraçar o mundo, mergulhei meu corpo todo de uma vez, com braços abertos. Ao invés de dar um pulo rápido com a posição certa onde seqüencialmente mergulhariam as mãos, os braços depois a cabeça e o resto do corpo na seqüência.
O mergulho demorou a sair e, não por culpa da água, doeu. Foi uma barrigada. Mas a água está deliciosa.