Porcelana

Lembro muito bem. A minha irmã certa vez ganhou uma daquelas bonecas de porcelana que são das mais tristes, pois com elas não se podem brincar: são muito frágeis e quebram.  Não era uma dessas caríssimas, feita toda em porcelana, era só sua cabeça era frágil. Seu corpo era feito todo de pano e mesmo assim ela exibia uma pose requintada, de bruços.
Xereta era adjetivo corrente meu, minha mãe adorava chamar-me assim, penso que adorava afinal foi ela quem me deu esse título, não sem razão: eu era um desses garotinhos sem modos, abria as gavetas das mobílias das casas que visitávamos, mexia em porta-retratos, enfeites e tudo mais. E isso foi até mesmo depois de crescidinho. Minhas mãos eram a extensão dos meus olhos que só brilhavam ao tocar as coisas, não bastava ver. Até hoje o toque eleva meu espírito.
E a boneca nova da minha irmã ficava dentro daquelas caixas azuis transparentes, bregas. Minha irmã justificativa que a tal boneca era um item colacionável e deveria ficar sempre dentro daquela caixa, enfeitando a prateleira sobre a cama dela no quarto que dividíamos. Pobre do brinquedo que perde o seu propósito, sua razão de ser.
Minhas mãos coçavam para pegá-la, elas a desejavam. Tocar a caixa não tinha a menor graça, definitivamente, queria mesmo era sentir a textura daqueles cabelos, correr meus dedos pelo rosto frio feito de porcelana, apertá-la, senti-la. Na primeira oportunidade que tive – não lembro mais a ocasião – passei suavemente o dedo no recorte que prendia um lado da caixa em forma de V e a abri. Com muito cuidado, retirei a boneca de lá e a apoiei sobre a cama da minha irmã. Ainda sem tocá-la, meus olhos brilharam. Pela primeira vez sem o toque meus olhos brilhavam: a caixa azul tosca e fosca tornava feias as cores reais da boneca que não se brinca.

Não, com ela não se brinca e meus olhos começaram a me explicar por que. Ela era bonita demais de se ver, chegava a ser uma experiência purificadora contemplar a beleza da boneca, acho que nunca dediquei tanto tempo de minha vida contemplando algo, mas passado algum tempo observando, comecei a reparar que ela estava triste em apenas ser observada e não achei justo que ficasse assim.
Então aconteceu o toque. Pude sentir a leveza do peso dela, o corpo macio, o cheirinho de lavanda, o cabelo de lã quente que se encontrava com o rosto gelado e frio que ainda era triste. Então, para animá-la um pouco, resolvi brincar com ela, balancei seu corpo freneticamente segurando-a pelos bracinhos como se dançássemos, rodopiei, joguei-a para o alto e a peguei, uma, duas, três, tantas vezes!
Por sorte eu brincava em cima da cama quando a cabeça de porcelana soltou-se do resto do corpo. Fiquei em estado de choque, fiz a boneca perder a cabeça! Eu estaria numa encrenca das grandes se não arrumasse aquilo.
Peguei a cabeça que tinha o rosto paralisado, mas agora sorria e coloquei novamente junto ao corpo debruçado da boneca, puxei um pouco a gola e os babados do vestido da boneca de forma que segurasse o pescoço e cuidadosamente, ela ainda sorria e parecia estar tudo bem. Guardei-a dentro da caixa e coloquei de volta em seu lugar. Arrumei todos os vestígios, alisei os lençóis da cama.  Ninguém perceberia.
Eu e boneca tínhamos então um segredo: ambos sabíamos que eu tinha soltado a cabeça dela e eu sabia fazê-la sorrir, mesmo que fosse perigoso. Eu não precisava mais retirá-la da caixa para que ela sorrisse pra mim. Mas minha irmã e todos os outros foram privados de conhecer suas reais cores, de ver seu sorriso. Eu não. E agora, nas próximas oportunidades só bastaria retirá-la da caixa, sem nem sequer tocá-la, pois ao me ver, ela sorria e ao vê-la, meus olhos brilhavam.

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