Partida

Depois da partida ficou uma dúvida a ser esclarecida: e agora, quem dá as cartas da próxima? Já não havia mais um vencedor nem um perdedor. Não havia, partiu.

No silêncio pairou a dúvida com toda a sua força. Quem quer jogar e está disposto? Jogar-se no abismo escuro pela adrenalina da queda temendo o impacto final. Que dêem as cartas! Mas as enderecem corretamente, identificando o remetente para que não se extraviem.

E mais uma partida. Da beira do abismo onde se jogam, os gritos de êxtase vão diminuído até sumirem. E essa é a aposta: quem perde se joga e quem ganha, não ganha.

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Panela de Arroz

Então Maria saiu para comprar panela. Sim, Maria queria uma nova panela onde cozinharia arroz, especificamente. Ao chegar na loja lança o desafio ao vendedor:

- Quero um jogo de panelas para arroz.

- Temos vários jogos de panela. Temos esse jogo muito bonito em aço inox. Coisa fina, resistente. Uma beleza!

- Moço, me desculpe, mas eu reparei que esse jogo tem frigideira, caneca, caldeirão… Não servem para fazer arroz. Eu quero um jogo de panelas onde todas devem servir para fazer arroz. Podem até variar no tamanho, mas elas precisam necessariamente ser úteis para se cozinhar arroz.

- Podemos montar um jogo! A senhora pode escolher entre os nossos modelos avulsos e…

- Não serve. Quero o jogo na caixa, fechado.

- Infelizmente não temos nada assim, a senhora já chegou a encontrar algo semelhante em outra loja?

- Não. Aqui é o primeiro lugar que eu vim. Fiquei até surpresa! Não esperava ter que rodar por aí para encontrar o que procuro.

- Mas não existe fabricante que venda tal jogo. Por que rejeita as avulsas?

- Eu não quero uma panela apenas. Quero um grupo delas. Mas para elas serem um grupo – e você há de convir comigo -  precisarão, necessariamente, estarem juntas e serem semelhantes.

- Qual a finalidade?

- Ha ha! Não me mate de rir! Você não pode ser tão ingênuo! Elas precisam fazer o arroz da mesma forma, filho. Não adianta pegar uma dessa prateleira, outra daquela e achar que o arroz sai igual! Santo Deus! Você não deve nunca ter cozinhado, né?

- Na verdade sou Chef no restaurante do centro e sócio aqui da loja. Fico aqui no setor de culinária para ajudar os clientes a escolherem. Mas a senhora, como minha cliente, tem razão e eu só posso lamentar não possuir o que você deseja. Para compensar, caso mude de idéia e queira comprar as panelas avulsas, posso dar 50% de desconto.

- Pensando bem, vou levar então! Quero quatro panelas. Mas você pode me ensinar como acertar sempre no arroz mesmo usando panelas de conjuntos diferentes?

- Muito simples! É só seguir sempre a mesma receita!

- Então esse é o segredo!?

- Deixa eu anotar aqui nesse papel a minha receita para a senhora. Toda vez que fizer arroz, é só seguir o que está anotado aqui.

- Muito obrigada, o senhor é muito gentil!

- Obrigado você! É só passar no caixa.

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Das pedras, coração

Após um longo período de reflexões e avaliação da vida. Não, nada muito complexo. Algo mais assim como esses pensamentos corriqueiros que todos possuem. Voltou a sonhar acordado. Coisa que há muito tempo não fazia, pois sempre que acordava se ocupava de afazeres e tarefas diárias trazidas pelo destino, mas que agora chegavam ao encerramento de um ciclo, permitindo novas perspectivas.

Acontece que fora dessas coisas cotidianas, esbarraram em sua vida novas pessoas com quem viveu suas paixões. Algumas tão intensas que vez ou outra tornam a ocupar esses pessamentos corriqueiros que todos possuem e outras nem tanto.

Mas houveram paixões mais intensas ainda, de alma, de coração. Acompanhadas da novidade que eram só por simplesmente serem. E essas são aquelas que foram justamente interrompidas por sorte (ou azar) do destino apruptamente. Deixando sequelas no coração.

E assim, blindou inconscientemente o coração de forma que mesmo ao permitir esbarros de novas pessoas, permanecesse intacto. Mas o problema é que os outros corações nem sempre estão blindados e ao simplesmente encostarem nessa versão mais dura, se ferem mais, sem razão.

E essa pedra de gelo parece que custará a se derreter. Mas, um dia, irá. E essa água correrá levando as feridas para um mar distante permitindo que esse coração frio, se torne quente novamente.

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Medo sem razão

Sabe naqueles dias que você começa a escrever um texto, e apaga? Torna a escrever de novo e apaga mais uma vez. Desfaz, refaz, minimiza, maximiza, restaura, fecha, abre…

Não sei se isso é sinal de que há muito a se falar e falta de meios para organizar as idéias. Ou simplesmente reflete o fato de que não se tem nada de relevante para escrever a respeito.

É como quando você hesita diversas num sábado à noite antes de sair. Olha para a cama, e resolve ligar para perguntar quem vai com certeza, quem talvez apareça, como vão, se tem carona, previsão de retorno, preço…

Não é falta de vontade, mas no fundo você está querendo prever a finalidade, a utilidade, se valerá a pena. Coisa que você jamais descobre ficando no sofá. Sempre há uma opção melhor do que o essa. A cama que seja, ou janelas de MSN.

Há hesitação a todo o momento: ao acordar e pensar no dia sofrido da segunda-feira, checar os e-mails, fazer um telefonema, conversar com o chefe, decidir o local do almoço, o que comer no almoço, a vida nos pergunta o que faremos dela a todo momento.

E o problema não está na tomada de decisão: escrever ou não, ligar ou não, sair ou ficar. O problema é o medo que guia as escolhas. Por medo, não escrever, não ligar e não sair. Aquele medo sem razão. Qual o problema? O que de pior pode acontecer?

E a vida vai não acontecendo: num rascunho rasgado, numa conversa evitada, numa dança recusada, no convite declinado, no beijo negado…

Ficando refém do medo sem razão.

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2009

Você já parou para pensar? Me pergunte “no que ?”  eu digo (desenvolvedores da internet 3.o, pensem em textos interativos a esse nível para o futuro): que mais um ano começou?

Tá, então você não é nenhum gênio. Foi o que eu pensei também e então eu tentei ir mais além: e daí? Daí complicou: o que fazer com um ano inteiro pela frente, sendo otimista e considerando que não vou morrer até o fim de 2009?

Quando eu pensei em fazer a lista, desisti e decidi algo muito importante para a minha vida. Não fazer listas, jamais! Listas são o maior atraso de vida inventado pela humanidade. Mania de ordenar coisas que não tem ordem! No tempo que se perde elaborando uma lista, você poderia estar de fato executando algo. Não tô falando de planejamentos e de grandes projetos com muitas pessoas envolvidas, mas de listas de coisas bobas e pessoais. Se somos capazes de executar uma coisa por vez, uma grande lista só serve para gerar o pânico de que não vai dar tempo. “Mas faço para não esquecer” ora, se esqueceu, não era importante. Sabe a data de aniversário de namoro? Esqueceu, porra! Uma data não é importante, a pessoa pode ser, a data não. Aquele farvozinho para o chefe? Aquele dinheiro, aquela prova, aquele e-mail? Talvez você esqueceria menos se não estivesse tão ocupado fazendo listas…

Voltando, o que fazer com uma ano pela frente? A resposta ideal é: o que me der na telha! Desde que isso não prejudique ninguém (isso inclui aquele assassinato a sangue frio que você estava planejando).

Então conclui que em 2009, vou fazer o que eu quero e o que o trabalho e a faculdade me obrigarem, mas, uma vez que trabalhar e estudar está entre as coisas que eu quero, não posso reclamar disso…

Sim, se eu quiser pentear um macaco, eu vou! E se eu quiser postar abobrinhas aqui? Vou também! Assim com eu acabei de fazer…

Papo sério: parem e pensem no que fazer com um ano inteiro, sem listas falhas por favor! E sem achar que você tem super poderes! Minha camiseta na virada de 2008 trazia os dizeres “I’m going to save the world” e você viu o mundo como está né? Falhei…

Nesse ano só vou fazer o que eu quero. Mesmo que para isso seja preciso fazer coisas que eu não quero.

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